Notícias Democráticas sobre Comunicação, Jornalismo, Cultura, Literatura, Comportamento, Sociedade, Saúde, Meio Ambiente e o que mais for interessante para mim e para os meus leitores.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
ONU cria site de áreas de risco
NAGOIA, Japão. O Programa de Meio Ambiente da ONU está se voltando para o mundo wiki na tentativa de melhorar a proteção dos parques e reservas naturais em todo o mundo.
Nesse sentido criou o site http://protectedplanet.net, para incentivar a visita e a atualização de dados de áreas protegidas e pouco conhecidas.
O lançamento da ferramenta na Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, em Nagoia, aconteceu em meio a relatórios alertando que a proteção dos oceanos precisa melhorar rapidamente.
As áreas protegidas são uma das formas mais eficazes de preservar plantas, animais Besancon, da ONU: - Os parques nacionais e as áreas preservadas são importantes para muitas funções, fornecem água potável para um terço das maiores áreas urbanas e protegem espécies ameaçadas.
Ele lembrou, por exemplo, que os últimos 600 gorilas da montanha estão em reservas cercadas por comunidades.
Sem elas, a espécie já teria desaparecido.
A ONU mantém um banco de dados de áreas protegidas em todo o mundo, com base em informações de governos. Porém, eles não são atualizados e o novo site deverá ajudar a melhorar isso.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Conferência climática da ONU aproxima-se de acordo--Unep
COPENHAGUE (Reuters) - O mundo aproxima-se de um acordo no âmbito das Nações Unidas para evitar os piores efeitos do aquecimento global, disse um relatório da ONU no domingo, enquanto os delegados se reuniam para discussões sobre o clima em Copenhague.
"Aqueles que dizem que um acordo em Copenhague é impossível estão simplesmente errados", disse Achim Steiner, chefe do programa do meio-ambiente da ONU (Unep), enquanto delegados de 190 países chegavam à capital dinamarquesa para as discussões sobre o clima que acontecem de 7 a 18 de dezembro para substituir o Protocolo de Kyoto.
"Estamos a curta distância de um acordo", disse ele em entrevista coletiva.
O perito em mudanças climáticas da Unep Nicholas Stern disse num relatório que a diferença entre as propostas apresentadas pelos países para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa e o que se precisa é de apenas alguns bilhões de toneladas.
O relatório disse que o mundo deveria tentar conseguir emissões máximas de 44 bilhões de toneladas por ano em 2020 para ter uma chance de conter um aumento na temperatura mundial a um limite de 2 graus Celsius acima da era pré-industrial.
As atuais propostas de limitação das emissões por países desenvolvidos e em desenvolvimento seriam o suficiente para limitar as emissões a 46 bilhões de toneladas em 2020.
Nos últimos dias e semanas, vários países inclusive os Estados Unidos, a China, a Índia, o Brasil e a Indonésia, definiram novas metas para reduzir as mudanças climáticas, que podem causar mais enchentes, secas, ondas de calor e um aumento do nível dos oceanos.
O relatório estimou que atualmente as emissões anuais de gases causadores do efeito estufa são de cerca de 47 bilhões de toneladas por ano. Sem as reduções, esse número aumentaria para 50 bilhões ou mais até 2020, conforme o estudo.
Em contrapartida, muitos peritos dizem que as promessas feitas até agora não são suficientes para chegar aos níveis que foram definidos para evitar o pior das mudanças climáticas, como garantir que as emissões globais caiam depois de 2020.Steiner disse reduzir as emissões da aviação e da navegação ou melhor uso de florestas para absorver as emissões poderiam ajudar a reduzir a diferença.
Steiner disse que a diferença entre o que os cientistas acreditam ser necessário e o que está na mesa em Copenhague reduziu-se bastante. "Ainda há uma diferença significativa, mas as pessoas exageram sobre a impossibilidade de reduzir a diferença."
"Pode-se dizer que estamos a apenas algumas gigatoneladas de alcançarmos um acordo em Copenhague em termos do objetivo de 44 gigatoneladas até 2020", disse ele.
"Isso é um sinal de que se os líderes quiserem negociar um acordo, eles podem alcançar um consenso antes do fim do encontro de Copenhague."
(Por Alister Doyle e Anna Ringstrom)
África envenenada por computadores descartados na Europa
Computadores descartados pela Europa envenenam crianças na África
Clemens Höges
Segundo a Bíblia, Deus lançou uma chuva de fogo e enxofre para destruir as cidades de Sodoma e Gomorra. E as autoridades governamentais de Accra, em Gana, também passaram a chamar de "Sodoma e Gomorra" uma parte da cidade afetada por produtos tóxicos de um tipo que os moradores das cidades bíblicas jamais poderiam imaginar. Ninguém vai a esse local, a menos que isso seja absolutamente necessário.
Uma fumaça ácida e negra passa sobre os barracos da favela. As águas do rio também são pretas e viscosas como óleo usado. Elas carregam gabinetes de computador vazios para o oceano. Nas margens do rio veem-se fogueiras alimentadas por isopor e pedaços de plástico. As chamas consomem o material plástico de cabos, conectores e placas-mãe, deixando intactos apenas o metal.
Hoje há um vento que faz com que a fumaça dessas fogueiras infernais passem lentamente por sobre a terra. Respirar muito profundamente é doloroso para os pulmões, e as pessoas que alimentam as fogueiras às vezes dão a impressão de serem apenas silhuetas vagas e enevoadas.
Uma figura pequena e curvada caminha entre as fogueiras. Com uma mão, o garoto arrasta um alto-falante velho pela terra e as cinzas, puxando-o por um fio. Com a outra mão ele segura firmemente uma bolsa.
O alto-falante e a bolsa são as únicas posses do garoto, além da camiseta e as calças que ele usa. Ele tem um nome incomum: Bismarck. O garoto tem 14 anos, mas é pequeno para a idade. Bismarck vasculha a terra em busca de qualquer coisa que os garotos mais velhos possam ter deixado para trás após queimarem uma pilha de computadores. Podem ser pedaços de cabo de cobre, o motor de um disco rígido, ou peças velhas de alumínio. Os ímãs do seu alto-falante também capturam parafusos ou conectores de aço.
Bismarck joga tudo o que encontra dentro da bolsa. Quando a bolsa estiver cheia até a metade, ele poderá vender o metal e comprar um pouco de arroz, e talvez também um tomate, ou até mesmo uma coxa de galinha grelhada em uma fogueira acesa dentro do aro de um carro velho. Mas o garoto diz que hoje ainda não encontrou o suficiente. Ele desaparece novamente na fumaça.
O refugo da era da internet
Esta área próxima a Sodoma e Gomorra é o destino final dos computadores velhos e outros produtos eletrônicos descartados de todo o mundo. Há muitos lugares como este, não só em Gana, mas também em países como Nigéria, Vietnã, Índia, China e Filipinas. Bismarck é apenas um de talvez uma centena de crianças daqui, e de milhares do mundo inteiro.
Essas crianças vivem em meio ao refugo da era da internet, e muitas delas podem morrer por causa disso. Elas desmancham computadores, quebrando telas com pedras, e a seguir jogam as peças eletrônicas internas em fogueiras. Computadores contêm grandes quantidades de metais pesados e, à medida que o plástico é queimado, as crianças inalam também fumaça carcerígena . Os computadores dos ricos estão envenenando os filhos dos pobres.
A Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que até 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico são jogadas anualmente no lixo em todo o mundo. O custo para se reciclar apropriadamente um velho monitor CRT na Alemanha é de 3,50 euros (US$ 5,30 ou R$ 9,20). Mas o envio do mesmo monitor para Gana em um contêiner de navio custa apenas 1,50 euro (R$ 3,80).
Um tratado internacional, a Convenção de Basileia, entrou em vigor em 1989. O tratado baseia-se em um conceito justo, proibindo os países desenvolvidos de enviarem computadores que foram para o lixo aos países subdesenvolvidos. Até o momento 172 países assinaram a convenção, mas três deles ainda não a ratificaram: Haiti, Afeganistão e Estados Unidos. Segundo estimativas da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, cerca de 40 milhões de computadores são descartados todos os anos somente nos Estados Unidos.
Diretrizes da União Europeia com acrônimos como WEEE (sigla em inglês de Lixo de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos) e RoHS (Restrição a Substâncias Perigosas) seguiram-se à Convenção de Basileia, e países individuais transformaram-na em lei. As leis relativas à administração de lixo na Alemanha estão entre as mais estritas do mundo, e neste país o envio de computadores descartados a Gana pode dar cadeia. Em tese.
Um negócio milionário
Recentemente o governo alemão mobilizou-se para verificar como é a situação na prática. Especialistas da Agência Federal do Meio Ambiente alemã ainda estão redigindo um relatório que será divulgado nas próximas semanas, mas as conclusões já são conhecidas - há sérias brechas no sistema de reciclagem do país. Segundo o estudo, firmas de exportação da Alemanha enviam 100 mil toneladas de aparelhos elétricos descartados a cada ano para os países subdesenvolvidos, o que é bem mais do que os especialistas temiam.
"Este é um negócio milionário. Não se trata de algo que possa ser classificado como crime pequeno", afirma Knut Sander, do instituto ambiental Ökopol, com sede em Hamburgo. Ele foi o autor do estudo, que exigiu meses de pesquisas. Por causa das suas investigações ele recebeu avisos de que deveria tomar cuidado com a sua segurança.
Ele não teve que ir longe do seu escritório para observar a atividade dessa indústria de exportação. "O Porto de Hamburgo é importante", explica Sander. "Aquilo que não sai por Hamburgo é embarcado em Antuérpia ou Roterdã."
Sander descobriu negociantes pequenos que enviam contêineres esporádicos ou alguns carros velhos cheios de computadores. Às vezes há centenas desses carros no terminal de O'Swaldkai, em Hamburgo, de onde os navios saem para a África. Há também grandes empresas enviando cargas de lixo tóxico - as chamadas companhias de remarketing, que coletam centenas de milhares de eletrodomésticos velhos todos os anos. Essas companhias têm autorização para revender computadores que estejam funcionando, mas são obrigadas a reciclar as máquinas defeituosas. E algumas delas sabem muito bem quanto dinheiro podem economizar enviando esses computadores inúteis para Gana.
A tarefa de deter essa exportação de lixo deveria ficar a cargo de uns poucos funcionários da alfândega e da guarda portuária. Mas quando os agentes ocasionalmente abrem um contêiner, eles estão provavelmente pedindo para ter dores de cabeça nos tribunais. As leis não definem o que seja um computador descartado, e é legal exportar computadores usados. Só não se pode exportar as máquinas descartadas. Um computador que está quebrado, mas que talvez ainda pudesse ser consertado, pode ser considerado lixo? E quanto a um computador de 20 anos de idade, que não consegue mais rodar um único programa? Quando há dúvidas, os juízes dão ganho de causa aos exportadores.
Entrando no inferno
Bismarck só sabe que todos os computadores exalam mau-cheiro, tenham eles dez ou 20 anos de idade, e não importando se sejam fabricados pela Dell, a Apple, a IBM ou a Siemens. Quando eles queimam, a fumaça faz com que a sua cabeça e garganta doam. As cinzas pegajosas grudam em cada poro e ruga, e provocam coceiras. Manchas aparecem na pele de Bismarck, mas ele sabe que não pode coçá-las porque a poeira tóxica entraria nas feridas abertas.
Desde o início Bismarck sabia que estava entrando no inferno. Mas quando tinha dez anos de idade, ele imaginava que o inferno pudesse, de alguma forma, constituir-se em uma aventura. De toda maneira, ele não tinha escolha, assim como as outras crianças daqui de Sodoma. A maioria delas vem das regiões mais pobres de Gana, no norte do país, para a capital, Accra.
Bismarck consegue ainda se lembrar da sua vila, que fica perto de Techiman, mais ou menos no meio do país. Lá não há eletricidade, e as paredes dos casebres são feitas de terra.
O pai dele desapareceu quando Bismarck era pequeno, de forma que ele jamais pôde perguntar por que o homem lhe deu um nome tão estranho, que ninguém na vila havia ouvido antes. A mãe de Bismarck criou-o sozinha, até ter sido atropelada por um carro. Ela perdeu as duas pernas no acidente, e morreu pouco depois.
Uma tia adotou Bismarck, mas havia pouca comida para todos. Finalmente um garoto mais velho da vila lhe falou sobre Accra, e sobre um lugar entre o mercado Agbogbloshie e a favela Sodoma, onde até mesmo um menino de dez anos de idade seria capaz de ganhar dinheiro suficiente para comprar comida. O adolescente de 16 anos também lhe falou sobre os computadores e a fumaça, e que ele teria que ser forte.
Pouco tempo depois, os dois garotos foram embora da vila, viajando de ônibus e depois de trem. O mais velho tinha dinheiro para as passagens porque já havia trabalhado em Sodoma.
Um euro por dia
Bismarck aprendeu as regras rapidamente. Existe uma hierarquia, e todo garoto pode tentar galgar essa estrutura. Os homens jovens, de cerca de 25 anos de idade, controlam as grandes balanças de ferro velho que ficam com frequências nos locais onde se podem ver marcas de pneus na cinza que cobre a terra. Quando a sacola de Bismarck fica cheia até a metade após um dia perambulando em torno das fogueiras, ele pode vender o material recolhido para esses homens por cerca de dois cedis ganenses, o equivalente a cerca de um euro ou US$ 1,50 (R$ 2,60).
Aqueles que são um pouco mais novos, com cerca de 18 anos de idade, possuem carrinhos de mão feitos com tábuas e eixos de carros velhos. Eles seguem para a cidade no início da manhã para coletarem computadores dos importadores de refugo e trazem o material de volta para a favela. Eles quebram os computadores e retiram os cabos, e depois jogam o que restou nas fogueiras ou vendem esse resíduos para garotos um pouco mais novos.
São principalmente esses garotos que carregam os montes de cabos plástico para serem queimados nas fogueiras. Um deles é Kwami Ama, que tem 16 anos e é um dos dois amigos de Bismarck aqui. Kwami tem um corpo forte e uma face redonda e de expressão honesta. Somente os olhos dele, altamente avermelhados devido à fumaça quando a noite cai, lhe dão uma aparência meio selvagem. As cicatrizes espalhadas pelas mãos foram provocadas pelas bordas afiadas de computadores quebrados e geladeiras velhas. Kwami arranca a camada de isolamento das geladeiras e as usa para acender as fogueiras,antes de jogar as peças de computadores no fogo. O isopor queima emitindo chamas violetas e verdes, com um calor suficiente para derreter até mesmo cabos dotados de produtos químicos retardadores de fogo no seu isolamento plástico.
Ao contrário de Bismarck, Kwami não consegue mais falar sobre a sua vida. "Fico triste com frequência", diz ele, embora esteja se saindo bem pelos padrões de Sodoma. Alimentar as fogueiras é a tarefa mais tóxica de todas, mas ele ganha dinheiro suficiente para alugar um local para dormir em um barraco de madeira em Sodoma. O barraco tem cerca de dois metros de largura por três de comprimento. Três garotos dormem dentro dele, dividindo o assoalho de madeira. Não há janelas no barraco, mas a porta tem um cadeado, o que lhes permite dormir em segurança - o que é um luxo em Sodoma.
Pobres contra pobres
Ao contrário do seu amigo, Bismarck tem medo da noite. Ele enrola-se no escuro como um cão e dorme encostado em uma parede de madeira em Sodoma, ou sobre as cinzas, ao lado de uma geladeira quebrada na área aberta onde ficam os eletrodomésticos quebrados. Às vezes ele dorme sobre as balanças. Ele muda o local de dormir com frequência. Bismarck tem apenas dois amigos aqui. No inferno, os pobres lutam contra os pobres.
Alguns dias depois, Bismarck teve um golpe de sorte ao encontrar uma grande quantidade de cobre, e o homem da balança pagou a ele sete cedis. Bismarck só gastou dois cedis, mas na manhã seguinte os outros cinco haviam desaparecido. Alguém usou uma lâmina para abrir o bolso de Bismarck quando ele dormia. Ele simplesmente ganha muito pouco. Bismarck consegue pagar pela comida ou por um local para dormir, mas não pelas duas coisas.
Bismarck também não pode passar a noite com os seus outros amigos. Danjuma tem 11 anos de idade e acredita que já está trabalhando aqui há vários anos. Os seus pais ainda são vivos, mas quatro outros irmãos dividem um barraco com ele em Sodoma, e não há espaço lá para Bismarck.
A mãe de Danjuma detesta ver o filho trabalhando nas fogueiras e desejaria que ele estivesse na escola. Mas a família precisa de dinheiro. Danjuma é o filho mais velho, e não se sabe quanto tempo mais ele será capaz de trabalhar efetivamente. Ele padece de dores frequentes no peito e nas costas.
Danjuma e Bismarck pertencem ao grupo mais jovem, de crianças entre 8 e 14 anos. Nem eles nem as meninas têm permissão para alimentar o fogo. Os garotos novos trabalham com ímãs, e as meninas trazem água em sacos plásticos, e às vezes comida, para os garotos mais velhos. "A gente tem que beber muita água", explica Kwami. O sol é escaldante, fazendo com que a temperatura à sombra seja de 30ºC. Mas não existe sombra em Agbogbloshie. Perto dali o plástico está queimando a uma temperatura de mais de 300ºC.
Encolhendo o cérebro
Kwami diz que se esqueceu de muita coisa, mas que ainda se lembra muito claramente de um certo dia do ano passado. Um grupo de indivíduos brancos veio até à área de ferro velho, o que é raro. Eles eram do Greenpeace. Um homem usava luvas e carregava pequenos tubos de ensaio. Ele coletou amostras da lama de um dos lagos formados pelo rio, e depois cinza e solo de vários locais diferentes na área.
O químico analisou as amostras quando voltou para casa, na Inglaterra, e os valores que obteve não foram bons. Ele descobriu concentrações elevadas de chumbo, cádmio e arsênico, bem como de dioxinas, furanos e bifenis policlorados.
O chumbo, para tomar como exemplo apenas um dos produtos químicos perigosos, provoca dores de cabeça e estomacais após uma breve exposição. No longo prazo, ele danifica o sistema nervoso, os rins, o sangue e especialmente o cérebro. Quando uma criança ingere chumbo através da água ou por inalação, o seu cérebro encolhe ligeiramente e a sua inteligência diminui. Cientistas da Alemanha ficam preocupados quando descobrem concentrações acima de um limite de 0,5 miligramas de pó de chumbo por metro cúbico de ar. O tubo de raios catódicos de um único monitor de computador contém cerca de 1,5 quilograma de chumbo. Muitas das outras substâncias encontradas pelos químicos no local também provocam câncer, entre outras doenças.
Contra-atacando
Mike Anane, um ativista ambiental e coordenador local da organização internacional de direitos humanos FIAN, trouxe os membros do Greenpeace para cá. Anane nasceu aqui há 46 anos, bem ao lado de onde hoje em dia se situa Agbogbloshie. Naquela época, as margens dos rio eram repletas de prados verdes e de flamingos, e os pescadores tiravam o seu sustento do rio. Agora não existe vida nessas águas.
Oito anos atrás, Anane começou a perceber a chegada de uma quantidade cada vez maior de caminhões em Agbogbloshie, com as carrocerias repletas de computadores. Ele observou a situação de perto e passou a contra-atacar aquilo que viu. Anane coleta adesivos de procedência de vários computadores descartados para descobrir de quem são os venenos queimados aqui. Ele possui adesivos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, de autoridades britânicas e de companhias como o Banco Barclays e a British Telecom. "Algumas crianças daqui não chegarão aos 25 anos de idade", acredita Anane.
Ele sabe, porém, que as companhias e organizações cujos selos chegam aqui juntamente com os equipamentos descartados não são os agentes que de fato trazem esse lixo para o seu país. As pessoas diretamente envolvidas são comerciantes como Michael Ninicyi, diretor da Kofi Enterprise.
A Kofi Enterprise é uma pequena loja repleta de computadores. Os melhores produtos são velhas máquinas Pentium vendidas por US$ 90 (R$ 156), incluindo um leitor de DVD. Impressoras e copiadoras são exibidas sob uma cobertura amarela na frente da loja - todas as máquinas são provenientes da Alemanha, segundo Ninicyi. Um exemplar do jornal "Berliner Morgenpost", usado para proteção contra arranhões, encontra-se dobrado entre dois computadores. Algumas das máquinas ainda trazem os adesivos de companhias cujas sedes ficam, por exemplo, na pequena cidade alemã de Kleve, no Estado de Brandenburgo ou no de Rhineland. Todos esses produtos funcionam e são legais.
"Este negócio é bom para Gana"
Ninicyi usa calças com vincos, um colar de ouro e sapatos caros. Este é um homem que alcançou o sucesso. O seu inglês é excelente, ele fala bem e é capaz de se defender com sucesso - embora não sinta necessidade de fazer tal coisa. Na verdade, o que ele sente é o contrário.
Ninicyi compra os seus produtos exclusivamente de navios de contêineres provenientes de Hamburgo. "Os alemães simplesmente tomam mais cuidado com os seus equipamentos do que qualquer outro povo", explica. Ele não quer dizer exatamente quem são os vendedores. Ninicyi compra os produtos sem examiná-los, algo que é comum nesta atividade. Como parte dos seus cálculos de custos, os vendedores alemães fazem com que em cada contêiner haja alguns equipamentos que funcionem, bem como alguns que ainda podem ser consertados. O restante, cerca de 30%, é lixo, que Ninicyi repassa imediatamente aos garotos que vêm de Agbogbloshie com os seus carrinhos da mão. Contêineres vindos do Reino Unido trazem uma proporção muito maior de lixo.
"Este negócio é bom para Gana e para os outros países", assegura Ninicyi. Ele diz que sente pelas crianças, mas afirma que paga impostos, e os seus fregueses também e que o povo de Gana tem acesso a computadores de preço acessível.
Ninicyi conhece até uma teoria maior que faria com ele fosse visto como algo semelhante a um funcionário de ajuda de desenvolvimento. A teoria da "lacuna digital", originalmente desenvolvida na Universidade de Minnesota, afirma simplesmente que, como os pobres não têm acesso aos meios modernos de comunicação, e como é o conhecimento que cria prosperidade, as pessoas mais pobres continuarão ficando para trás e a lacuna se expandirá ainda mais. O fornecimento de computadores ajuda a reduzir essa lacuna.
Essa teoria tem alguns pontos fracos. Por exemplo, ela foi desenvolvida em 1970, três anos antes de um jovem estudante chamado Bill Gates sequer começar a estudar na Universidade Harvard. Há também uma segunda teoria da era da computação, a Lei de Moore, cujo nome é uma alusão a um dos cofundadores da Intel, que afirma que a capacidade de processamento dos computadores dobra a cada dois anos. Os criadores de softwares seguem a tendência, fazendo com que os computadores mais novos de hoje já estejam ultrapassados amanhã e prontos para serem mandados para Sodoma um dia depois.
"Por que vocês não interrompem o fluxo de lixo?"
"Esse processo está cada vez mais rápido, e nós estamos sendo esmagados", queixa-se John Pwamang, diretor do Centro de Gerenciamento e Controle de Produtos Químicos da Agência de Proteção Ambiental de Gana. A agência está localizada em um prédio de concreto em péssimas condições. A caminho do escritório de Pwamang, os visitantes precisam subir primeiro uma escada que no passado deve ter sido verde, e a seguir passar por um banheiro com defeito e uma sala de conferência de cortinas marrons esfarrapadas. Na sala há três depósitos de lixo - um marrom, para papel, um cinza, para plástico, e um outro marrom para tudo mais. Entretanto, o país não conta com um sistema de reciclagem de lixo em funcionamento. Ao que parece a agência de Pwamang ainda tem alguns problemas pela frente.
Os olhos de Pwamang são pouco visíveis por trás das grossas lentes bifocais. Ele fala suavemente, o que o ajuda a parecer mais tranquilo do que realmente é. "Vocês europeus não mudam", reclama ele. "O que deveríamos fazer com os produtos tóxicos que vocês nos mandam? Não temos como reciclá-los. Vocês possuem as instalações para isso. Computadores que funcionam não são nenhum problema, mas muitas das máquinas velhas demais não duram nem um ano aqui. Por que vocês não interrompem o fluxo de lixo?".
Pwamang não tem como provar que o chumbo e as dioxinas estão matando as crianças. Quase ninguém com mais de 25 anos trabalha nas fogueiras às margens do rio de águas pretas. E não existe estudo algum sobre o problema. O Greenpeace identificou e quantificou as toxinas, mas a organização não examinou os efeitos diretos delas. "As crianças estão doentes", afirma Pwamang. "Temos aqui metais pesados e venenos. Um estudo seria bom, mas mesmo sem nenhum estudo eu sei que a situação é desastrosa."
Sonhando em escapar
Mas, apesar de tudo, as crianças de Sodoma às vezes parecem se divertir. Os garotos mais velhos jogam futebol à noite em um espaço aberto entre as fogueiras, com dois vergalhões servindo de gol e monitores de computador vazios marcando as bordas do campo. Os jogadores correm e mergulham entre a fumaça das fogueiras. Eles não estão jogando apenas para se divertir, mas também por causa de seus futuros, já que muitos ganenses deixaram o país para jogar nas ligas profissionais no Ocidente. É um sonho meio louco, mas para muitos dos jovens daqui, um sonho é a única coisa que lhes permite escapar.
O amigo de Bismarck, Danjuma, tem o mesmo sonho, é claro. Ele adoraria treinar futebol, apesar das dores no peito. Mas ele não tem dinheiro para comprar uma bola. Mas talvez seja melhor assim já que, se corresse, ele teria que respirar profundamente a fumaça.
Tradução: UOL
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
África lidera prêmio socioambiental da ONU
África lidera prêmio socioambiental da ONU
Prêmio Seed, que elege iniciativas sociais em prol do meio ambiente, selecionou três projetos africanos entre cinco grandes vencedores
A África é onde atuam três dos cinco vencedores do Prêmio Seed, concurso que dá US$ 35 mil em ajuda a cada uma das iniciativas sociais selecionadas que combatem a pobreza de forma sustentável. Foram premiados programas do Zimbábue, Níger, Bangladesh, Colômbia e um que atua ao mesmo tempo no sul da África e na Índia.
O valor do prêmio é repassado em forma serviços de suporte e parcerias durante um ano aos projetos premiados. O objetivo é ajudar as instituições a aumentar sua capacidade de atuação. No Zimbábue, país de 11 milhões de habitantes e onde mais de 35% são considerados pobres pelo governo, o prêmio foi para um grupo de mulheres fazendeiras. No programa “Pontes para o Mundo”, elas cultivam alimentos orgânicos, com técnicas ambientalmente corretas. Também produzem óleos usando a folha de um arbusto local, o Tarchonanthus camphoratus.
O trabalho feminino também foi o destaque do projeto de Níger, chamado “Almodo”. No país, pequenas empresas se juntaram para estudar melhores destinos para o lixo. Um grupo de mulheres atua na coleta dos resíduos. Níger tem população equivalente a da Bahia (15 milhões de habitantes), e 66% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza (com menos de US$ 1,25 por dia), segundo o RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) de 2009.
Outra iniciativa premiada foi a “Protocolos Bioculturais”, que atua na Índia e em diversos países do sul da África, como África do Sul, Namíbia e Botsuana. O programa cria formas de exigir que as comunidades tradicionais tenham o direito de compartilhar dos lucros de qualquer produto que possa ser feito com recursos naturais da região.
Ainda foram vencedoras ações da Colômbia e de Bangladesh. A iniciativa colombiana, chamada “Ouro Verde”, reuniu uma série de ONGs no combate a práticas de mineração nocivas ao meio ambiente. Eles criaram um certificado para mineradores que respeitam regras ambientais. O país latinoamericano tem um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) próximo ao do Brasil, ficando apenas duas posições atrás no ranking, na 77ª colocação.
Em Bangladesh, ONGs criaram lanternas solares a partir de materiais recicláveis. A tecnologia desenvolvida pelo programa “Conversão solar das lâmpadas de querosene” reaproveitou o material das lamparinas movidas a gás, bastante comuns na região. O país vizinho da Índia é o sétimo mais populoso do mundo, embora tenha uma área do tamanho do Ceará. Quase metade dos seus 157 milhões de habitantes vive abaixo da linha da pobreza.
Além dos cinco grandes vencedores, o Prêmio Seed elege mais 15 projetos, que recebem assistência no valor de US$ 5 mil. Este ano, três projetos brasileiros foram contemplados. Um deles foi o programa “1 Milhão de Cisternas”, que constrói reservatórios de água da chuva em áreas secas do nordeste e de Minas Gerais. O “Piabas do Rio Negro”, que promove a pesca sustentável de peixes ornamentais, e “O Uso Sustentável de Sementes Amazônicas”, sobre geração de renda a partir da produção de óleos feitos com sementes, também foram premiados.
fonte: http://www.pnud.org.br