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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Biólogos afirmam que ser humano tem compulsão por ajudar
A resposta obtida por alguns biólogos, bastante surpreendente, é que os bebês são naturalmente sociáveis e bons para com os outros. Obviamente, todo animal precisa ser de certa forma egoísta para sobreviver. No entanto, os biólogos também enxergam, nos humanos, uma disposição natural para ajudar.
Quando bebês com 18 meses de idade veem um adulto sem parentesco, cujas mãos estão ocupadas e que precisa de ajuda para abrir uma porta ou apanhar algo do chão, eles imediatamente ajudarão, escreve Michael Tomasello em "Why We Cooperate" (Por Que Cooperamos, em tradução livre), livro publicado em outubro. Tomasello, psicólogo de desenvolvimento, é codiretor do Instituto Max Planckde Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha.
O comportamento de ajuda parece inato por aparecer tão cedo e antes de qualquer pai ensinar à criança as normas do comportamento educado.
"É razoavelmente seguro supor que eles não foram explicita e diretamente ensinados a fazer isso", disse Elizabeth Spelke, psicóloga de desenvolvimento de Harvard. "Por outro lado, eles tiveram muitas oportunidades de experimentar atos de ajuda por outras pessoas. Acho que o júri está focado na questão de isso ser inato".
Tomasello, entretanto, não acha que a ajuda é motivada por recompensas, sugerindo que não é algo influenciado pela educação. O fato parece ocorrer em diversas culturas, com diferentes agendas para o ensino de regras sociais. E o comportamento de ajuda pode ser visto até mesmo em filhotinhos de chimpanzés, sob as condições experimentais corretas. Por todas essas razões, Tomasello conclui que ajudar é uma propensão natural, e não algo imposto pelos pais ou pela cultura.
Bebês também ajudarão com informações, além das maneiras práticas. Desde os 12 anos de idade, eles apontarão a objetos que um adulto pensa ter perdido. Chimpanzés, ao contrário, nunca apontam coisas um para o outro - e quando apontam para pessoas, parece mais um comando para buscar algo do que um compartilhamento de informações.
Mais cooperativas fora de casa
Para pais que acham que seus filhos, de alguma forma, pularam a fase cooperativa, Tomasello oferece um conselho animador - de que as crianças muitas vezes são mais cooperativas fora de casa, explicando por que os pais podem ficar surpresos ao ouvir de um professor ou treinador como seus filhos são ótimos. "Nas famílias, o elemento competitivo está em ascendência", disse ele.
Conforme crescem, as crianças se tornam mais seletivas em suas ajudas. Por volta dos três anos, elas se associarão mais generosamente com uma criança que já tenha sido boa para elas. Outro comportamento que surge na mesma idade é um senso de normas sociais. "A maioria das normas sociais se refere a ser bom a outras pessoas", disse Tomasello em entrevista, "então as crianças aprendem essas normas porque querem fazer parte do grupo".
As crianças não apenas sentem que devem obedecer a essas regras, mas também que devem fazer os outros do grupo agirem da mesma forma. Até mesmo crianças de 3 anos estão dispostas a impor normas sociais. Se alguém lhes ensina um jogo, e um boneco se junta com suas próprias ideias sobre as regras, as crianças irão se opor, algumas delas de forma barulhenta.
Onde elas conseguem essa ideia de regras de grupo, o senso de "nós que o fazemos desta maneira?" Tomasello acredita que as crianças desenvolvem o que ele chama de "intencionalidade compartilhada", uma noção do que os outros esperam que aconteça e, disso, um senso do grupo "nós". Seria dessa intencionalidade compartilhada que as crianças obteriam seu senso de normas, e de esperar que os outros as obedeçam.
A intencionalidade compartilhada, na visão de Tomasello, é parecida à essência do que distingue as pessoas dos chimpanzés. Um grupo de bebês humanos usará todos os tipos de palavras e gestos para formar objetivos e coordenar atividades, mas os jovens chimpanzés parecem demonstrar pouco interesse no que pensam seus companheiros.
Se os bebês são naturalmente cooperativos e sociáveis, que sistema de educação parental melhor aproveita essa surpreendente propensão? Tomasello diz que a abordagem conhecida como paternidade indutiva funciona melhor, pois reforça a propensão natural da criança a cooperar com outros. A paternidade indutiva é simplesmente se comunicar com crianças a respeito do efeito de suas ações nos outros, e enfatizar a lógica da cooperação social.
Egoístas também
"As crianças são altruístas por natureza", escreve ele. Embora elas também sejam naturalmente egoístas, tudo que os pais precisam fazer é tentar inclinar o equilíbrio na direção do comportamento social.
A intencionalidade compartilhada repousa na base da sociedade humana, segundo Tomasello. Dela fluem ideias de normas, de punir aqueles que violam essas normas e de vergonha e culpa para a autopunição. A intencionalidade compartilhada se desenvolveu muito cedo na linhagem humana, ele acredita, e seu provável intento era a cooperação pelo acúmulo de alimento.
Antropólogos relatam que, quando os homens cooperam ao caçar, eles abatem presas muito maiores, algo q eu caçadores solitários não conseguem fazer. Chimpanzés se juntam para caçar macacos Colobus, mas Tomasello argumenta que isso é muito menos que um esforço cooperativo - já que os participantes agem de maneira pontual, e nem chegam a compartilhar suas presas.
Um interessante reflexo físico da intencionalidade compartilhada nos humanos é a esclera, ou o branco dos olhos. Todas as mais de 200 espécies de primatas possuem olhos escuros, e uma esclera quase invisível. Todas com a exceção dos humanos, cuja esclera é três vezes maior, uma característica que torna muito mais fácil seguir a direção do olhar de outros. Chimpanzés também seguem o olhar de uma pessoa, mas olhando para sua cabeça, mesmo que seus olhos estejam fechados. Bebês acompanham os olhos de uma pessoa, mesmo que essa mantenha sua cabeça imóvel.
Propagandear o que se está olhando pode ser um risco. Tomasello argumenta que o comportamento se desenvolveu "em grupos sociais cooperativos onde monitorar o foco um do outro visava o benefício comum ao completar tarefas conjuntas".
Isso poderia ter acontecido em algum ponto bem no início da evolução humana, quando as pessoas eram forçadas a cooperar na caça ou coleta de frutas para sobreviver. O caminho da cooperação obrigatória - aquele que não foi usado pelos outros primatas - levou a regras sociais e à sua imposição, ao altruísmo humano e à linguagem.
"Os humanos unindo suas cabeças em atividades cooperativas compartilhadas são, portanto, os criadores da cultura humana", escreve Tomasello.
Uma conclusão similar foi atingida independentemente por Hillard S. Kaplan, antropólogo da Universidade do Novo México. Os humanos modernos viveram pela maior parte de sua existência como caçadores coletores, então muito da natureza humana foi presumivelmente moldada para a sobrevivência nessas condições. Com o estudo de povos caçadores coletores existentes, Dr. Kaplan encontrou evidências de cooperação entrelaçadas em muitos níveis de atividades humanas.
Cooperação entre os sexos
A divisão de trabalho entre homem e mulher - os homens concentram 68% das calorias em sociedades de caça - exige cooperação entre os sexos. Os jovens dessas sociedades consomem mais do que produzem até os 20 anos de idade, o que por sua vez exige cooperação entre as gerações. Esse longo período de dependência era essencial para o desenvolvimento das habilidades necessárias ao modo de vida caçador-coletor.
A estrutura das primeiras sociedades humanas, incluindo seus "altos níveis de cooperação entre familiares e não-familiares", era assim uma adaptação ao "nicho especializado de busca" por alimentos que eram difíceis demais para outros primatas capturarem, segundo Kaplan e colegas escreveram recentemente no The Philosophical Transactions of the Royal Society. Nós evoluímos para sermos bons uns aos outros, em outras palavras, porque não havia alternativa.
Em outro livro lançado em outubro, "The Age of Empathy" (A Era da Empatia, tradução livre), Frans de Waal chegou praticamente à mesma conclusão. De Waal, primatologista, estudou por muito tempo o lado cooperativo do comportamento primata, e acredita que a agressão, algo que também estudou, é muitas vezes superestimada como uma motivação humana.
"Somos pré-programados a estender a mão", escreve Dr. de Waal. "A empatia é uma resposta automática, sobre a qual temos controle limitado". As únicas pessoas emocionalmente imunes à situação do outro, segundo ele, são os psicopatas.Realmente, é em nossa natureza biológica, e não em nossas instituições políticas, que devemos colocar nossa confiança, segundo sua visão. Nossa empatia é inata e não pode ser alterada, tampouco suprimida por muito tempo. "Na verdade", escreve De Waal, "eu argumentaria que a biologia constitui nossa maior esperança. Podemos apenas tremer ao pensamento de que a humanidade em nossas sociedades dependeria dos caprichos da política, cultura ou religião".
A sociabilidade básica da natureza humana não significa, é claro, que as pessoas são boas umas às outras o tempo todo. A estrutura social exige que algumas coisas sejam feitas para mantê-la, algumas das quais envolvendo atitudes negativas em relação a outras pessoas. O instinto de impor normas é poderoso, assim como o instinto pela justiça. Experimentos demonstraram que as pessoas rejeitam distribuições injustas de dinheiro, mesmo se isso significar que elas não receberão nada.
"Os humanos claramente desenvolveram a habilidade de identificar injustiças, controlar desejos imediatos, prever as virtudes de se obedecer a normas e obter as recompensas pessoais e emocionais que acompanham a visão de outro sendo punido", escrevem três biólogos de Harvard, Marc Hauser, Katherine McAuliffe e Peter R. Blake, revisando seus experimentos com saguis e bebês.
Se as pessoas fazem coisas más aos outros de seu próprio grupo, elas podem se comportar de maneira ainda pior em relação a quem está fora. A capacidade humana para cooperação "parece ter se desenvolvido principalmente para interações dentro do grupo local", escreve Tomasello.
A sociabilidade, a união de membros de um grupo, é o primeiro requisito da defesa, já que sem ela as pessoas não colocarão os interesses do grupo à frente de seus próprios, ou estarão dispostas a sacrificar suas vidas em batalha. Lawrence H. Keeley, antropólogo que investigou a agressão entre povos antigos, escreve em seu livro "War Before Civilization" (A Guerra Antes da Civilização, tradução livre) que, "No final das contas, a guerra não é uma negação da capacidade humana para cooperar, mas simplesmente a expressão mais destrutiva dessa capacidade".
As raízes da cooperação humana podem estar na agressão humana. Somos egoístas por natureza, mesmo que também sigamos regras exigindo que sejamos bons para com os outros. "É por isso que sofremos com dilemas morais", concluiu Tomasello. "Porque somos egoístas e altruístas ao mesmo tempo".
fonte: The New York Times, por Nicholas Wade
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Estágios para jovens em conflito com a lei nos tribunais do país
Adolescentes trabalharão nos tribunais do país
Jovens com idade entre 16 e 21 anos, em situação de conflito com a lei, terão a oportunidade de estagiar em Tribunais de todo o Brasil, de acordo com uma recomendação feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no último dia 13, aos Tribunais brasileiros. A proposta é que eles contratem estes jovens para estágios ou ainda que os encaminhem para atividades de prestação de serviços à comunidade.
A iniciativa está baseada em um acordo que foi firmado entre o CNJ, Tribunais com sede em Brasília, Capital Federal, e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Distrito Federal. A ideia é que os estados abracem a causa e acompanhem o exemplo de Brasília.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Livro-reportagem mostram grotões do país
Poeira, seca e precariedade de recursos. Esse é o cenário escolhido pelos repórteres da Folha de S.Paulo Eduardo Scolese e Hudson Corrêa, que percorreram 30 municípios brasileiros para escrever o “Eleições na Estrada – Jornalismo e realidade nos grotões do País”, livro-reportagem editado pela Publifolha.
A pauta surgiu dos próprios repórteres. O objetivo dos jornalistas era registrar como se dá uma campanha eleitoral em regiões onde água, cimento ou qualquer promessa é moeda de troca na conquista de votos. Lugares onde um só candidato “disputa” uma eleição, sem nenhuma oposição, e onde candidatos “laranjas” se espalham. Grotões que enfrentam problemas em educação, saúde, desmatamento, nepotismo, desemprego, trabalho escravo e coronelismo.
Os jornalistas se aventuraram durante um mês na estrada, cada um dirigindo um carro alugado e seguindo um roteiro diferente. Scolese fez o roteiro Nordeste-Sudeste, saindo de Natal até Brasília para cobrir as campanhas eleitorais no Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Piauí, Bahia e Minas Gerais. Hudson Corrêa passou pelo Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil, rodando 8.500 km em 34 dias: de Teresina, seguiu para o interior do Maranhão, depois Pará, Tocantins e Mato Grosso.
Na denúncia de muitas irregularidades eleitorais, alguns candidatos chegaram a ameaçá-los. ”Recebíamos algumas intimidações, como ‘você está no lugar errado, na hora errada’. Outros diziam que andavam armados. Nesses municípios era difícil abordar porque as pessoas não entendem o que você está fazendo, sempre achavam que nós estávamos a serviço da oposição”, explica Corrêa.
Scolese diz que o que mais o surpreendeu foi no município de Mirante, na Bahia. “Encontrei uma família que de tão pobre não tinha nem acesso ao Bolsa Família, não tinham documentos. Foi o momento que me deu uma baqueada na viagem, mas eu tinha que demonstrar que não estava surpreso e tentar conversar com aquelas pessoas normalmente.”, lembra o jornalista, autor e co-autor de outros três livros, “A Reforma Agrária”, “Pioneiros do MST” e “Viagens com o Presidente”.
fonte: Izabela Vasconcelos, de São Paulo
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Normose - a doença de ser normal
por Michel Schimidt
Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema. Quem não se "normaliza", quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.
A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento que "exercem" tanto poder sobre nossas vidas?
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados.
A normose não é brincadeira.
Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer ser o que não se precisa ser. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?
Então, como aliviar os sintomas desta doença?
Um pouco de auto-estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim, aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo.
Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais e tentam viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é iluminada.
Por isso divulgue o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
Michel Schimidt - Psicoterapeuta
CONVITE PARA LIVRO CONFLITOS NA ESCOLA: MODOS DE TRANSFORMAR
Local: Museu da República - Rua do Catete, 153 , Catete, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, tel. 55 21 3235 2650.
Horário: 16:00
Tema: Educação
Autor: Claudia Ceccon, Madza Ednir e outros
Editora: Imprensa Oficial
Publicado em: 2009
Tipo de Mídia: Cenpec Indica
Data de Criação: 02/10/2009
A questão da violência na escola vem cada vez mais atraindo a atenção de educadores, gestores e pesquisadores. O livro "Conflitos na Escola - Modos de Transformar", foi lançado recentemente no bojo desse debate e é fruto de parceria entre pesquisadores do Centro de Criação e Imagem Popular (CECIP-Brasil) - Claudius Ceccon, Claudia Ceccon e Madza Ednir - e do Centro Internacional pelo Aperfeiçoamento de Escolas (APS International-Holanda) - Boudewijn van Velzen, Dolf Hautvast e Frank van Hout.
Em entrevista ao Cenpec, as autoras Claudia Ceccon, doutoranda em Liderança Educacional pela Universidade de West Michigan, e Madza Ednir, mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), falam sobre as principais idéias contidas no livro e os caminhos para lidar com o problema da violência escolar.
Qual a proposta do livro?
Madza: Esse livro quer ser mais um instrumento à disposição de educadores e jovens interessados na transformação de sua escola em um espaço onde se possa conviver com alegria e aprender em segurança.
O livro faz uma distinção entre conflito e violência. Você poderia falar um pouco sobre essa diferenciação? Um conflito não pode desencadear uma situação de violência?
Claudia: Conflitos são inerentes à vida. Sem eles, não há aprendizagem nem mudança. O diálogo mestre - aprendiz envolve conflito entre novos conceitos e velhas formas de se compreender o mundo. No entanto, muitas vezes não conseguimos lidar bem com situações em que ideias, necessidades e aspirações diferentes se chocam. É quando paramos de escutar o outro e não o vemos mais como um semelhante, como alguém que pensa e age diferente de nós, mas cuja humanidade é a mesma que a nossa. O fim do diálogo é o início das manifestações de violência social, psicológica ou física. Esse livro é sobre como manter o diálogo na escola, sempre, e, quando ele se rompe, sobre como retomá-lo.
Pesquisa realizada por Miriam Abramovay na rede pública de ensino do DF e divulgada este ano revelou que as violências na escola, especialmente as verbais, são muito mais comuns do que se imagina; há todo tipo de preconceito na escola: contra negros, pobres, homossexuais etc. Entre as diversas deficiências presentes na formação dos professores está o despreparo em detectar e lidar com essas situações de violência não-física. O livro trata dessa questão, procura contribuir nesse sentido?
Madza: Essa é uma questão central do livro. Ele traz uma análise interessante sobre o tema, apresentando a "Escala de Allport". Gordon Allport é um psicólogo americano que, nos anos 1950, analisando o fenômeno do nazismo, postulou a existência de um contínuo que começa com a simples manifestação de antipatia e que, se não é interrompido, chega à discriminação e à xenofobia. Baseados em pesquisas como a de Abramovay, procuramos mostrar que o fundamento das violências na escola reside em sua dificuldade de construir vínculos positivos entre as pessoas que nela atuam e de oferecer atividades curriculares que façam sentido. O maior antídoto contra as violências é fazer com que as crianças, jovens e adultos sintam-se respeitados e queridos na escola: sintam-se parte de uma coletividade cujo objetivo comum é aprender e aperfeiçoar-se continuamente. O livro traz, em cada capítulo, uma "Caixa de Ferramentas", com descrição detalhada de estratégias e dinâmicas que favorecem a conexão entre todos os agentes da comunidade escolar. Uma delas é a realização da Conferência sobre Segurança e Cidadania na Escola, onde se elabora o Código de Conduta da Escola, com participação ativa de todos os alunos, docentes, funcionários e representantes das famílias e comunidade.
O livro também trata da relação escola-comunidade. De que modo a escola pode influir positivamente sobre a comunidade? É possível que uma boa escola se estabeleça em meio a uma comunidade marcada pela pobreza?
Claudia: Esse é um dos motes do livro: existem escolas seguras em comunidades violentas e escolas violentas em comunidades pacatas. Assim como o todo influencia a parte, a parte influencia o todo. Entre sistemas e entre os componentes de um sistema, o feedback é constante. O último capítulo é todo dedicado às parcerias e alianças que a escola precisa aprender a fazer com "o lado de fora". Não basta criar vínculos entre professores, estudantes, gestores, funcionários. É preciso uma "escola aprendente" conectada à "comunidade aprendente" à que serve, sentindo-se parte dela. E, da mesma forma, é essencial que as organizações e representantes da comunidade ou cidade educativa possam sentir-se corresponsáveis pelo sucesso da escola. Parcerias entre escolas e ONGs, universidades, alianças entre escolas e empresas, vem ajudando a construir comunidades aprendentes e seguras.
Serviço:
Conflitos na Escola - Modos de Transformar
Autores: Claudia Ceccon, Madza Ednir, Claudius Ceccon (ilustrações), Boudewijn van Velzen, Dolf Hautvast e Frank van Hout
Editora: Imprensa Oficial
208 págs.
Preço: R$ 25
Inscrições abertas - Terapia de Família 2010 - RJ
Estão abertas as inscrições para o curso de Formação em Terapia de Família da parceria Instituto Noos/Multiversa.
O curso reúne o melhor de duas instituições tradicionais com mais de vinte anos de experiência na formação de terapeutas sistêmicos.
Programa:
. Dois anos de fundamentos teóricos e epistemológicos da Terapia Sistêmica, acompanhados de dinâmicas de grupo, exercícios de reflexão e observação de atendimentos.
. Um ano participando de equipes de atendimento a famílias da Clínica Social com supervisão presencial.
Início em 03 de março de 2010
Oferecemos:
. Visão construcionista social
. Trabalho com família de origem do terapeuta
. Treinamento para o trabalho com Equipe Reflexiva
. Formação continuada *
Pré-requisito: Graduação na área de saúde, educação ou serviço social
Equipe:
Carlos Eduardo Zuma l Carmen Pontual
Cristiane Rangel l Eloisa Vidal Rosas l Gizele Bakman Helena Julia Monte l Heloisa Costa l Jorge Bergallo
Maria Beatriz Costamilan l Rosana Rapizo
Horário das aulas em 2010:
Quartas-feiras de 8h30 às 11h30
Local:
Rua Álvares Borgerth, 27 - Botafogo - Rio de Janeiro
Ligue e marque sua entrevista!
* O aluno poderá ampliar sua formação participando dos cursos oferecidos a cada semestre.
Informações: cursos@noos.org.br e http://www.noos.org.br/terapiadefamilia_10.htm
Tel.: 21 2579-2357
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Os familiares dos “sininhos envenenados”
Tudo isso eu já sabia, mas, o que me fez chocada foi tomar conhecimento de como os pais dos usuários convivem com essa tragédia. Psiquiatras dizem que a família precisa desconfiar de atitudes suspeitas dos jovens. Muito bem, e daí? Quais são os instrumentos necessários para que pais, irmãos, tios, avós e amigos ajudem uma pessoa querida que estão desmoronando à sua frente?
Foi esse tipo de pergunta que me fiz ao ler o livro “Sininho Envenenada” (Rio de Janeiro: Outras Letras, 2006), baseado nos diários de um pai e sua filha usuária de drogas, revelando o drama vivido por toda a família na luta contra as drogas e a busca de uma saída. Os altos e baixos da filha Graciela, usuária dos 15 aos 22 anos, nos mostra um outro mundo que pode estar sendo vivido por nossos filhos também.
Há poucas semanas, lemos o desabafo do um pai emocionado, o produtor cultural Luiz Fernando Prôa, que entregou o seu filho à polícia após ele ter estrangulado e matado sua namorada. Ele só tem 26 anos e certamente não terá uma carreira de sucesso como outros filhos de milhares de brasileiros. Alguns matam aos 19 anos ou aos 15 anos. Geralmente pessoas queridas, da família. E a resposta para isso, eu descobri no livro acima, é que os adictos (uma pessoa cuja vida é controlada pelas drogas) não amam ninguém, a não ser as drogas!
Não adianta ficar horrorizado, estarrecido e desesperado com as notícias diárias sobre os crimes e castigos desses jovens. Como cidadãos, precisamos cobrar soluções para nossos governantes, mas também ajudar essas famílias no sentido de dificultar o uso da droga por seus filhos. A internet é o meio de comunicação mais usada pelos jovens? Proponho fazer dela uma agressiva ferramenta com campanhas sistemáticas e eficientes para divulgar as trágicas conseqüências dessas e outras drogas. Vamos denunciar os pontos de vendas, os traficantes, os locais mais fáceis de consumo, as conivências policiais...
Faço um apelo aos atores, cantores, tele novelistas, apresentadores, radialistas, jornalistas, enfim, todos que trabalham ou estão ligados à mídia, que exponham suas opiniões e tornem público os problemas de pais e filhos que convivem com as drogas. Talvez assim seja possível acordar uma população adormecida, anestesiada e quase cega. Fazer protesto contra as leis e a falta de amparo governamental não é o bastante. A hora é de união, conhecimento e muita dose de solidariedade para com todos os envolvidos nas drogas. Importante agora é saber mais sobre o assunto através de livros, artigos científicos e opiniões de especialistas. Assim cada um de nós pode ser um porta-voz da luta contra as drogas.
Na edição de 5 de abril de 2006 da revista Veja, Lya Luft declara “nós todos somos culpados de que eles tenham existido, sofrido, matado e morrido, sem nenhuma possibilidade de vida, de esperança e de dignidade.” Eu não quero ver meu filho morto, nem atrás das grades. E você?
Liz Boggiss, jornalista e assessora de imprensa.